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Exclusiva: “Cenário de catástrofe”, Samu Oeste relata mortes, desaparecidos e operação 24h em Juiz de Fora e Ubá

A tragédia provocada pelas chuvas torrenciais na Zona da Mata ganhou um retrato de dentro da operação de emergência na sexta-feira (27), quando o Divinews entrevistou ao vivo, com exclusividade, dois membros do Consórcio Intermunicipal de Saúde Oeste, dos três que estão nos locais, que integram a resposta nacional do SUS. De Juiz de Fora, Arthur Henrique, coordenador de frota do Samu, e Thamara Lesse, enferemeira e coordenadora de regulação, que está em Ubá, descreveram o cenário de catástrofe nas duas cidades.

Em Ubá, Thamara Lesse, enfermeira e coordenadora de regulação, relatou uma cidade abalada, com prejuízo material massivo e serviços de saúde destruídos.

A presença dos 2 na região não se deu por acaso. Arthur explicou que o acionamento ocorreu por meio da Força Nacional do SUS, com solicitação para deslocar recursos e profissionais capazes de dar “pronta resposta” e reorganizar fluxos em meio ao colapso local

A lógica, segundo ele, é simples e dura. Em desastre, a cidade perde infraestrutura, perde rotina e perde, temporariamente, a capacidade de atender a própria emergência. E isso acontece porque até quem deveria socorrer também vira vítima. “Muitas das vezes as pessoas que trabalham aqui também foram atingidas”, disse, ao lembrar que há profissionais desalojados, desabrigados e até com luto na família.

Thamara confirmou o mesmo padrão em Ubá. Ela relatou que a equipe chegou para estruturar um centro de operações e orientar lideranças locais sobre prioridades, já que o cenário muda rapidamente “da noite para o dia,”E descreveu a cena sem maquiagem: “É cena de filme de horror mesmo”.

Em Juiz de Fora, o quadro ficou mais complexo pela combinação de enchente e deslizamentos. Arthur comparou o evento a outras crises climáticas em que já atuou, como a enchente no Rio Grande do Sul, mas apontou um agravante local: “Aqui com os agravantes dos deslizamentos de terra”

A topografia cercada por morros, somada a solo encharcado e construções em encosta, ampliou o risco. Ele explicou que as equipes aguardam estabilização por Defesa Civil e Bombeiros antes de entrar em áreas perigosas, para não transformar o resgate em nova tragédia.

O retrato humano apareceu em números e em histórias. Arthur informou que, na atualização da manhã daquele dia, Juiz de Fora registrava 62 óbitos confirmados e 7 pessoas desaparecidas, com tendência de aumento ao fim do di

Ele fez questão de enfatizar que a divulgação oficial deve partir das autoridades locais, mas reforçou que o patamar de mortes já era superior a 68. Thamara, por sua vez, relatou 7 óbitos em Ubá, um número menor que Juiz de Fora, mas devastador para um município menor, ainda mais com o centro econômico atingido.

Em Ubá, o “vilão” foi o rio. Thamara descreveu que a região central, especialmente a área conhecida como Beira Rio, concentrou o impacto. O rio transbordou e veio “como tsunami”, destruindo pontes, invadindo comércios e arrastando tudo no caminho.

O prejuízo atingiu lojas de vários perfis e moradores de diferentes realidades, derrubando a ideia de que a enchente escolhe classe socialtambém sofreu golpe direto. Thamara contou que a Policlínica ficou “totalmente” destruída e que as unidades básicas tentavam se reestruturar para manter atendimentos mínimos. Nesse ponto, a resposta nacional se impôs. Ela relatou o envio de containers que vão funcionar como consultórios para suprir a assistência, inclusive a não urgente, mas necessária para evitar sobrecarga posterior.

A operação, porém, não se limita a maca, sirene e ambulância. Arthur destacou uma frente psicossocial, com psicólogos e psiquiatras para saúde mental de vítimas e de equipes. Ele descreveu o drama de quem perde casa, familiar e referência, e lembrou o peso dos soterramentos, onde, muitas vezes, nem há corpo para velório imediato.

Thamara reforçou o mesmo tema de outro ângulo, dizendo que ninguém consegue prometer “vai ficar tudo bem” a quem perdeu tudo aos 70 anos, e que, na missão, a frase possível é outra: “Estamos com vocês”

A entrevista também expôs a engrenagem invisível da emergência, logística. Arthur explicou que o voluntariado vem do Brasil inteiro, mas precisa de alojamento, deslocamento, segurança e coordenação, até porque há cidades sem hotel disponível, com estruturas afetada

Ele descreveu que levou 12 pessoas para o campo e que a missão funciona 24h, sem “fim de semana. Thamara detalhou que a equipe reúne lideranças para decidir medidas da madrugada e do dia seguinte, porque a chuva pode voltar e o cenário virar de novo.

E é aqui que mora um ponto crítico para quem quer ajudar. Arthur fez o alerta. Voluntário sem orientação pode atrapalhar e se colocar em risco. Ele recomendou acompanhar as redes oficiais dos municípios e seguir exatamente o que está sendo pedido, tanto para doações quanto para trabalho voluntári

Thamara, no mesmo sentido, listou necessidades que ainda fazem diferença na ponta: EPI, luvas, capacetes, colchões, cobertores, roupas e água, além de itens para quem limpa lama e remove entulho.

A cena mais simbólica narrada por Thamara não foi técnica. Foi humana. Ela contou que, ao chegar para apoio em um cemitério, encontrou 7 velórios ao mesmo tempo, com pessoas desmaiando, calor, comoção, e um caixão de criança aberto. E resumiu o que ninguém quer aprender na prática: o corpo trabalha no automático na missão, mas a mente “sente” quando volta para casa.

A tragédia em Juiz de Fora e Ubá escancarou 3 verdades. A primeira: clima extremo virou realidade recorrente. A segunda: a rede local, sozinha, tende a colapsar quando perde estrutura e pessoal ao mesmo tempo. A terceira: o SUS e o Samu sustentam, na dor, a última linha de proteção, não com discurso, mas com presença, método e mão na massa.








 

 

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