A Avenida Primeiro de Junho, no trecho próximo à Praça da Catedral, virou por anos um ponto de tensão cotidiana para moradores, comerciantes e quem precisava simplesmente atravessar o Centro de Divinópolis. A personagem central dessa rotina de medo era Maria, mulher em situação de rua que, segundo relatos recorrentes encaminhados ao Divinews ao longo do tempo, acumulava episódios de agressividade, ataques repentinos, pedras arremessadas contra veículos e estabelecimentos e abordagens violentas a pessoas vulneráveis, principalmente mulheres e idosos.
Nesta quarta-feira, em uma live realizada pelo Divinews, o vereador Matheus Dias trouxe a atualização que muitos esperavam ouvir havia tempo: Maria foi acolhida em uma instituição e não está mais nas ruas. A notícia, por si, alivia o ambiente urbano imediato, mas também revela que o problema real não se resolve com sumiço momentâneo. O desafio, agora, é transformar acolhimento em tratamento, e tratamento em estabilização, para que o caso não volte a se repetir como um ciclo sem fim.
Na conversa, Matheus contextualizou que a situação de Maria se agravou nos últimos meses e deixou de ser apenas um quadro de vulnerabilidade social. Ele descreveu uma evolução para surtos e episódios de risco concreto, com registros de agressões, interrupção de trânsito e comportamento imprevisível. Ao mesmo tempo, pontuou que existe um histórico de atendimento por trás do que o público vê na rua, com passagens por serviços de saúde mental e ações de abordagem, além de tentativas anteriores de encaminhamento para a cidade natal dela, no Vale do Rio Doce, sem permanência efetiva por falta de vínculo familiar e por se tratar de atendimento “porta aberta”.
Esse detalhe é o centro do nó. “Porta aberta” significa que a pessoa permanece se quiser. Se disser que quer sair, sai. E é exatamente aí que a política pública esbarra nos limites da lei, da rede e do próprio modelo de atendimento. Maria, segundo o vereador, aceitou o encaminhamento desta vez e está acolhida, mas o risco de retorno às ruas ainda existe, justamente porque o acolhimento, sozinho, não garante permanência nem estabilização.
A live também serviu para separar, com clareza, três camadas que muita gente mistura no debate de rua: social, saúde e segurança pública. A dimensão social envolve equipe de abordagem, casas de passagem, higiene, alimentação, encaminhamentos e suporte básico. A dimensão da saúde, especialmente quando há indicação de transtorno mental e uso abusivo de álcool e drogas, exige avaliação clínica, medicação, estabilização e acompanhamento. Já a dimensão da segurança pública entra quando há agressão, ameaça, vandalismo, risco a terceiros e perigo de morte, seja para a população, seja para a própria pessoa em surto.
Matheus destacou que o Município vinha tentando construir solução dentro “das quatro linhas”, porque existem travas legais relevantes, inclusive em temas como internação compulsória. Ele relatou que já houve tentativa de judicialização para internação, mas o pedido foi indeferido, e sustentou que a legislação atual, somada ao medo institucional de responsabilização, torna o processo lento e extremamente difícil. Ao mesmo tempo, reforçou que a ausência de uma resposta contínua empurra a cidade para um cenário de improviso: a população liga para o 190 quando a crise explode, a polícia age no momento, a pessoa retorna e o ciclo recomeça.
O encaminhamento anunciado na live veio acompanhado de um plano que tenta romper esse padrão. Segundo o vereador, enquanto Maria está acolhida, a Prefeitura e os serviços envolvidos correm para organizar documentação, prontuários e laudos para buscar uma vaga em espaço médico adequado. A meta seria estabilizar o quadro, garantir cuidados básicos, hidratação, medicação e, depois, iniciar um período de tratamento com tempo mínimo para recuperar controle e reduzir o risco de surto. A partir daí, se houver adesão, abrir caminho para continuidade em modelo terapêutico. O objetivo, na definição do próprio vereador, é duplo: dignidade para ela e segurança para a população.
O caso de Maria virou um símbolo justamente por expor uma verdade desconfortável: há situações em que o debate deixa de ser “compaixão versus repressão” e passa a ser “proteção versus omissão”. Quem vive o Centro sabe que a liberdade de ir e vir não pode ser confundida com o direito de agredir, quebrar, ameaçar e colocar terceiros em risco. Ao mesmo tempo, também é fato que uma pessoa em surto, em uso de substâncias e sem acompanhamento, pode virar vítima do próprio descontrole, sofrer violência, atropelamento, espancamento ou acabar morta numa noite qualquer sem que o Estado tenha conseguido agir antes.
É por isso que a fala do vereador tentou amarrar as pontas. Ele reconheceu a revolta de quem foi prejudicado, mas insistiu que há uma rede trabalhando e que a solução definitiva passa por saúde mental estruturada, por regras mais claras e por atualização de mecanismos legais para situações-limite, onde o risco deixa de ser teórico e se torna diário. O acolhimento de agora é uma virada importante, mas só será vitória de verdade se vier acompanhado de continuidade.
O Centro de Divinópolis, por enquanto, respira. Mas a cidade ainda precisa responder a pergunta que ficou ecoando na live: como impedir que casos semelhantes se repitam, e como proteger, ao mesmo tempo, a população e quem já perdeu a própria capacidade de se proteger.
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