O Portal de Negócios e Notícias da cidade de Leandro Ferreira - MG

O Portal de Negócios e Notícias
da cidade de Leandro Ferreira - MG

“Por trás das chamas”: Nilmário Miranda, em livro, acusa ditadura militar de usar fornos para incinerar opositores no Brasil; tal qual Auschwitz

Divinópolis recebeu nesta semana uma visita que mexe com a memória política do Brasil e com um tema que, mesmo após décadas, ainda divide versões, desperta incômodo e abre feridas. Em entrevista ao Divinews, o ex-deputado federal, ex-ministro de Direitos Humanos e escritor Nilmário Miranda apresentou seu sexto livro, “Por trás das chamas”, e sustentou uma tese dura: durante a ditadura militar instalada em 1964, o país teria operado estruturas clandestinas para eliminar opositores e apagar vestígios, incluindo o uso de fornos para incinerar corpos, numa prática que ele compara, em lógica e brutalidade, a métodos associados ao regime nazista de Hitler, em  Auschwitz.

A entrevista não foi uma aula fria. Foi um relato atravessado por trajetória pessoal e por contexto histórico. Nilmário falou como autor, mas também como alguém que viveu a repressão de perto, com prisões políticas, clandestinidade e a experiência do Estado como máquina de perseguição. Ele descreveu como a ditadura desmontou estruturas democráticas, reprimiu sindicatos, movimentos sociais e qualquer organização que fosse interpretada como ameaça. Nessa construção, o livro surge como tentativa de traduzir para a nova geração um tema que, segundo ele, ainda é tratado com esquecimento conveniente, relativização ou desinformação.

O núcleo do livro, como ele apresentou, conecta dois pontos que se tornaram símbolos do terror clandestino. Um deles é a chamada Casa da Morte, associada a Petrópolis, no Rio de Janeiro. O outro é a Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, também no Rio. Na narrativa defendida por Nilmário, o que existia não era apenas repressão institucional “formal”, mas uma engrenagem paralela, com sequestros e operações clandestinas, que teria funcionado como terrorismo de Estado. A gravidade da denúncia está justamente na lógica, não se trataria apenas de prender ou intimidar, mas de sumir com pessoas e sumir com a prova.

Ao falar sobre fornos e incineração, Nilmário não buscou choque gratuito. Ele buscou equivalência de método: eliminar e apagar. O termo “por trás das chamas” funciona como metáfora e como acusação. Metáfora porque remete ao apagamento de rastros e à tentativa de apagar a própria história. Acusação porque, segundo ele, o Brasil precisa reconhecer que houve práticas de extermínio clandestino, mesmo que em escala diferente de regimes europeus, mas com a mesma intenção central, impedir que o opositor existisse, e impedir que o país tivesse documentos e evidências que sustentassem a responsabilização.

A apresentação do livro também foi atravessada por uma defesa explícita de memória e verdade como política pública. Nilmário argumentou que o país não pode tratar a ditadura como capítulo neutro ou “disputa ideológica”, porque, na visão dele, a consequência direta foi um modelo de Estado que sequestrou direitos, criminalizou opinião e destruiu vidas. Ele resumiu o propósito do livro em uma ideia que se repete como lema de quem trabalha com memória histórica: “para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

O autor também contextualizou por que decidiu escrever de forma mais acessível. Ele afirmou que já trabalhou com registros extensos e técnicos, mas que este livro busca dialogar com uma geração que lê diferente, consome informação em ritmo acelerado e, muitas vezes, entra em contato com o passado por recortes, vídeos e slogans. Nesse cenário, ele defendeu que a disputa de memória não se vence apenas com arquivos. Ela se vence com narrativa compreensível, com ligação entre fatos e com coragem de enfrentar o desconforto.

A live tocou ainda, sem virar o eixo principal, na política atual. Nilmário evitou transformar o lançamento em comício. Ainda assim, ele deixou um alerta sobre radicalização, desinformação e sobre o risco de normalização de discursos autoritários. A mensagem que atravessou o encontro foi simples: quando o país perde o senso de limite, a democracia vira alvo fácil, e direitos humanos viram “opinião”, não compromisso civilizatório.

O lançamento em Divinópolis, portanto, não foi apenas um ato cultural. Foi um gesto político no sentido mais profundo do termo: um convite para que o Brasil olhe para trás com seriedade, não para viver preso ao passado, mas para impedir que o passado seja reeditado com nova embalagem. “Por trás das chamas” chega ao debate público como um livro de denúncia e memória. E chega, também, como provocação: o que o país quer lembrar, e o que ele insiste em esquecer.

O post “Por trás das chamas”: Nilmário Miranda, em livro, acusa ditadura militar de usar fornos para incinerar opositores no Brasil; tal qual Auschwitz apareceu primeiro em DiviNews.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima