A audiência de custódia do ex-presidente Jair Bolsonaro, realizada no final da manhã deste domingo (23), expôs um conjunto de contradições, justificativas inesperadas e relatos que levantaram ainda mais dúvidas sobre o episódio envolvendo a tornozeleira eletrônica, rompida na véspera de sua prisão preventiva. O Divinews obteve o termo oficial completo da audiência (veja ao final), que revelou trechos inéditos e detalhes omitidos pelo ex-presidente em declarações anteriores.
A sessão, aberta às 12h por videoconferência, foi presidida pela juíza auxiliar Luciana Yuki Fugishita Sorrentino, integrante do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, relator da Pet 14.129. O documento registra que Bolsonaro afirmou ter se sentido em “paranoia” e até “alucinação”, alegando efeitos de medicamentos prescritos por diferentes médicos sem comunicação entre si.
Logo no início, ele confirmou seus dados qualificativos e declarou fazer uso de vários remédios. No termo, consta que faz “uso de vários medicamentos” e que seu “sono é picado”. Durante a oitiva, afirmou ainda que não dorme direito há dias.
Quando questionado sobre a tornozeleira, Bolsonaro apresentou a versão que se tornou o ponto mais controverso da audiência. Ele disse que, entre sexta-feira e sábado, viveu uma “certa paranoia” provocada pela interação dos remédios Pregabalina e Sertralina, levando-o a tentar abrir o equipamento com um ferro de solda. No documento, a juíza registrou claramente:
“O depoente respondeu que teve uma ‘certa paranoia’ de sexta para sábado em razão de medicamentos… resolvendo, então, com um ferro de soldar, mexer na tornozeleira, pois tem curso de operação desse tipo de equipamento.”
Essa declaração contrasta com o que afirmou no sábado, quando agentes registraram que Bolsonaro havia dito ter iniciado a violação à tarde. Já no termo oficial da custódia, declaração diferente:
“Afirmou o depoente que, por volta de meia-noite, mexeu na tornozeleira, depois ‘caindo na razão’ e cessando o uso da solda.”
A mudança de versão virou destaque entre juristas. A PF havia registrado sinais claros de que o equipamento sofreu queimaduras em toda a circunferência. Questionado sobre o porquê de mexer no dispositivo, Bolsonaro alegou que acreditava haver “escuta” dentro da tornozeleira. O documento anota:
“O depoente afirmou que estava com ‘alucinação’ de que tinha alguma escuta na tornozeleira, tentando então abrir a tampa.”
A juíza também registrou que Bolsonaro disse não se lembrar de ter vivido “surto dessa natureza” antes, e que começou a tomar um dos remédios apenas quatro dias antes do episódio.
Outro ponto chamou atenção: Bolsonaro afirmou que ninguém percebeu a tentativa de violação, mesmo com ferro de solda e queimaduras no equipamento. Disse que estavam na casa a filha de 15 anos, o irmão mais velho e um assessor, mas que todos dormiam. O documento registra: “As demais pessoas que estavam na casa dormiam e ninguém percebeu qualquer movimentação.”
A situação levantou questionamentos imediatos: como um ex-presidente sob monitoramento crítico pôde manipular um objeto quente, com sinais de solda, sem que nenhum familiar percebesse? E por que um ferro de solda estaria disponível no imóvel, se esse não é objeto comum em residências? Bolsonaro respondeu:
“Afirmou o depoente que tinha o equipamento em casa.”
A audiência também confirmou divergências sobre a narrativa de suposta fuga. O Ministério Público Federal perguntou diretamente se Bolsonaro tentou remover a tornozeleira para fugir. O termo oficial registra sua resposta: “O depoente afirmou que não tinha qualquer intenção de fuga e que não houve rompimento da cinta.”
Entretanto, os relatórios técnicos contradizem essa afirmação, indicando marcas de queimadura e danos compatíveis com violação voluntária do dispositivo.
A procuradoria não apontou abusos dos agentes que cumpriram a prisão, e Bolsonaro confirmou isso na audiência: “O custodiado não apontou qualquer abuso ou irregularidade por parte das autoridades policiais responsáveis pelo cumprimento do Mandado de Prisão.”
Ao final, a juíza Luciana Sorrentino homologou formalmente o cumprimento do mandado de prisão preventiva e registrou que não havia irregularidades processuais. O documento encerra:
“HOMOLOGO o cumprimento do Mandado de Prisão… relegando a análise das questões relacionadas ao mérito da causa a Sua Excelência, o Ministro Relator.”
O teor da audiência desmente versões anteriores e reforça contradições já observadas nos relatórios técnicos da Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal, que haviam apontado múltiplas queimaduras no equipamento e inconsistências no relato de Bolsonaro sobre o horário da tentativa de violação. Os autos agora retornam ao ministro Alexandre de Moraes, que avaliará os próximos passos do processo.
O post Audiência de Custódia: Documento Oficial revela que Bolsonaro alegou ‘surto’ e mudou versão sobre horário da violação; diz que tem curso de solda (redes sociais criam memes) apareceu primeiro em DiviNews.