Nos bastidores empresariais de Minas cresce o incômodo com o protagonismo político de Flávio Roscoe à frente da Fiemg. Críticos enxergam aparelhamento partidário em uma entidade que sempre manteve maior discrição institucional.
O estopim veio com manifestos e notas públicas alinhadas a pautas da direita e a discursos próximos a Jair Bolsonaro e Romeu Zema, o que reforçou a leitura de politização inédita. Documentos recentes exibiram críticas diretas ao Supremo e ao Judiciário em geral, sob o selo da Fiemg.
Para opositores de Roscoe, a federação virou vitrine ideológica. Eles afirmam que, em vez de representar a pluralidade da indústria mineira, a entidade passou a ecoar uma agenda política específica, com foco em enfrentamento institucional e alinhamento à extrema direita.
Esses críticos lembram que a Fiemg sempre teve presidentes influentes, mas apontam diferença importante. Ex-presidentes costumavam separar o tempo da entidade do ciclo das disputas eleitorais. O exemplo mais citado é o de José Alencar.
Antes de virar vice-presidente da República na chapa de Lula, José Alencar construiu trajetória empresarial sólida à frente da Coteminas e presidiu a Fiemg com perfil mais corporativo. Só depois deixou a federação, e então entrou de forma direta no jogo eleitoral, primeiro como senador e depois como vice de Lula, servindo de ponte entre o petista e o empresariado.
O contraste interessa muito aos adversários internos de Roscoe. Eles dizem que, enquanto Alencar saiu da cadeira de presidente da Fiemg antes de disputar cargos, Roscoe parece testar discurso e musculatura política ainda sentado no comando da entidade. Essa leitura alimenta a acusação de uso da estrutura da federação para construir um projeto pessoal.
Empresários que discordam dessa rota afirmam, em reservado, que nunca viram a Fiemg tão identificada com um campo ideológico específico. Eles apontam a recorrência de declarações públicas sobre temas nacionais, sempre em tom favorável a pautas econômicas da direita e a críticas a decisões de tribunais superiores.
Nesse ambiente, surgiu a pergunta, sussurrada em reuniões e grupos privados do setor produtivo: será que Roscoe tenta repetir o caminho de José Alencar, mas pela direita, usando a Fiemg como trampolim político enquanto ainda preside a federação?
Quem sustenta essa tese enxerga movimentos calculados. Apontam discursos que extrapolam a agenda estritamente industrial e entram na arena da guerra cultural, da polarização e da pressão sobre instituições. Para esses críticos, o objetivo real não mira apenas a defesa da indústria, mas a construção de uma marca política pessoal.
Outros ex-presidentes de entidades nacionais da indústria, como Robson Braga de Andrade, que chegou à presidência da CNI após liderar federação estadual, também ilustram o contraste. Eles seguiram a escalada institucional típica do sistema, mas sem sinais tão explícitos de projeto eleitoral direto durante os respectivos mandatos.
Defensores de Roscoe rejeitam a narrativa de aparelhamento. Eles dizem que o presidente da Fiemg apenas vocaliza preocupações legítimas do setor produtivo, que inclui críticas ao custo Brasil, à insegurança jurídica e ao ativismo de algumas instâncias do Judiciário. Para esse grupo, a leitura de “projeto eleitoral” nasce de adversários incomodados com a liderança dele.
Mesmo assim, a comparação com José Alencar continua presente. O ex-vice de Lula construiu imagem de mediador entre governo e mercado, defendendo juros menores e desenvolvimento, sem confundir o tempo da Fiemg com o tempo da urna. Já Roscoe enfrenta acusação de misturar as duas esferas em plena presidência da federação. E o pior, diz sua oposição, mudou o estatuto da federação para permanecer no cargo por mais um ano e deter poder em ano eleitoral, somado ao fato da prática de etarismo, ao impedir a ocupação do cargo de presidente da entidade a partir dos 70.
Até agora, Roscoe não anunciou formalmente qualquer candidatura. Por isso, as críticas permanecem no campo da interpretação política e da disputa de narrativa. O episódio, porém, revela uma federação dividida, com parte da indústria satisfeita com o tom combativo e outra parte preocupada com o custo reputacional de uma Fiemg cada vez mais identificada com um lado da trincheira ideológica.
Nesse cenário, o nome de Flávio Roscoe segue associado a duas imagens distintas. Para aliados, representa um líder firme, disposto a enfrentar o que considera excessos do Estado. Para opositores, simboliza o risco de transformar uma entidade de classe histórica em plataforma eleitoral permanente. Quem terá razão, o tempo e as urnas dirão.
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